domingo, 17 de agosto de 2008

A TransProjetação

Título Original - A Projetação - Publicado em 02 de março de 2004 no Jornal do Brasil
Virginia Salerno - Engenheira

No Balanço Mensal do JB, economistas e cientistas políticos debatem assunto atualíssimo, remetendo-nos à área social do governo e à preocupação quanto à eficiência dos projetos, no que tange à distribuição de renda para nossa população mais carente.
Todos os argumentos dos especialistas, de significativa importância, sugerem principalmente a montagem de um sistema de avaliação de projetos. Isso já existe em quase todos os países do Hemisfério Norte. Essa existência, no entanto, não é garantia de que sistemas trazidos como pacotes prontos possam servir ao nosso país e à nossa sociedade latino-americana. Mas bem como expressa o desejo desses especialistas, há realmente uma necessidade da montagem desse sistema.
O que esses especialistas talvez não saibam, contudo, é que outros pesquisadores e especialistas, aqui no Brasil, já se vêm debruçando sobre essa questão há uma década. A projetação é um esforço desse trabalho que visa a disseminar práticas de gestão muito mais transparentes e, portanto, eficientes, relativas ao uso de dinheiro público, tanto por parte dos serviços públicos concedidos a empresas privadas quanto por parte dos administradores públicos.
Esse esforço concentrado, na busca da responsabilização desses gestores, teve como fim elaborar uma metodologia - ou sistema, como queiram os especialistas - com seis passos, denominada de projetação, que tivesse capacidade, ao mesmo tempo de fornecer instrumentos ao gestor relativos a: coleta de dados (1); busca e análise das causas dos problemas ocorridos no projeto, sistema ou organização (2); modelagem desses dados (3); negociação do modelo concebido com os stakeholders (pessoas envolvidas no projeto) a partir dos dados coletados e analisados (4); implantação do modelo, tornando-o tangível para a sociedade (5); e após a implantação, monitoramento ou manutenção do artefato (o modelo que se tornou obra, por exemplo uma estrada, um viaduto, o SUS, o programa Bolsa Família etc), para ajustes contínuos por novos dados, novas situações e novos contextos (6).
Essa metodologia ou sistema não só exige do gestor uma responsabilidade nos projetos que vai implantar, liberando as verbas na medida em que forem cumpridos os seis passos existentes, como também o deixa atualizado quanto às oportunidades e ameaças do ambiente interno - e igualmente do ambiente externo - à organização.
Como se pode ver, é um sistema muito simples, com mecanismos e instrumentos que devem ser utilizados sistematicamente, sem, no entanto, engessar a administração. Ao contrário, o objetivo é tornar a organização um ''ambiente aberto'' e monitorado, recebendo sempre novos dados e novas descobertas relativas aos artefatos e projetos existentes. É um círculo virtuoso de uso do dinheiro público que certamente estará na pauta de alguns legisladores responsáveis.
Nele, nenhum projeto e nenhuma verba relativa a este deixarão de passar por um crivo sistemático de observação e monitoramento por parte daqueles que gerem a coisa pública. Um programa de capacitação de gestores para o século XXI que se encarregue de propagar o desenvolvimento sustentável (que significa, e somente isso, o sadio equilíbrio entre qualidade de vida, economia e meio ambiente) é o começo desse círculo virtuoso que pretende capacitar pessoas interessadas na gestão pública em todo o país. A possibilidade da existência desse programa não deve ser perdida de vista por um governo progressista.

Virginia Salerno é doutora em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ

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